Arquivo | setembro, 2011

‘cause every night the stars will shine

28 set

verging into U-turns times.

Não sei até que ponto existem coincidências e sinais, destino e etc. También no creo en las brujas … mas o fato é que ontem resolvi ouvir uma música que estava como sugestão na minha página do youtube, que se chamava Gravity, da Sara Bareilles.

O que me chamou a atenção foi o título, já que também gosto de uma música do John Mayer do mesmo nome.

Enaquanto lia meus emails, vim ver a publicação da Malu que tratava também deste mesmo assunto; pra completar, no último sábado fiz um brainstorming de posts a escrever aqui pro blog e comecei um que falava de uma cantora que eu gosto muito, Pixie Lott, e a minha música favorita dela … Gravity.

Nessa música, tudo gira em torno de um cara que às vezes dá sinais de que quer uma coisa, às vezes muda de comportamento e, apesar de entender que ele precisa de um momento e querer terminar tudo … ele a puxa, como a gravidade.

Acho que a Pixie cantando faz jus ao seu nome de fadinha e confesso que compreendo a forma com que ela descreve o fato de se querer fugir de algo e, quando consegue, volta pro lado errado, mergulha sem proteção nenhuma em um oceano de incertezas. E o pior é que, mesmo sabendo que o caminho é o ‘errado‘, é bom trair as próprias promessas e voltar a sentir só mais um pouquinho aquilo tudo de novo;

o problema, pois, é ter algum lugar pra onde fugir e de repente ter que fugir deste lugar, mesmo que em pensamentos.

por fim, apesar de saber que todas as noites possuirão o conforto das estrelas, elas também gravitam em torno de um mesmo sentimento, refletem o que se tentou esconder …

I know I betrayed but I’m made to ignore the universe when I see you, ‘cause every night the stars will shine, verging into U-turns times.
Anything that they can just to change my mind
When I pass your road I can’t help rewind
What is wrong with me?
Every time I’m ready to leave
Always seem to be  pullin in the wrong direction,
Divin’ in with no protection.
Oh gravity
Pullin me back, pullin me in
Why you pullin me back, pullin me in
Just like gravity?


amores imaginários – parte 2

27 set

Semana passada estive em São Paulo mais uma vez, no cansativo ofício de provar meu valor para analistas de RH, enfatizando o papel da geração Y nas mudanças de rumo da sociedade, na caminhada para um futuro sustentável, blá-blá-blá, bite me. Fato curioso é que, nesse processo de se apresentar, a gente acaba se conhecendo melhor. A meu ver, estas viagens e experiências acabam valendo muito mais do que qualquer terapia ou livro de autoajuda.

Cheguei na selva de pedra um dia antes do meu compromisso e aproveitei para passear pela cidade, já que aquele lugar é minha paixão (um vidente uma vez me disse que eu tenho uma ligação cósmica com SP, confesso que acredito). Estava entrando na Livraria Cultura da Paulista quando vejo um banner “CBN – Gravação do programa No Divã do Gikovate“. A gravação começava em menos de 10 minutos e eu, mais do que depressa, subi até o teatro em que seria realizada. Para quem não conhece, é um programa apresentado pelo médico, psicoterapeuta e escritor Flávio Gikovate, num formato de perguntas e respostas – ouvintes e pessoas da plateia fazem perguntas e ele responde. Vai ao ar na CBN aos Domingos, às 21h.

Estava com o assunto do post amores imaginários na cabeça e fiz uma pergunta, que foi escolhida para ser respondida. Quem for curioso o suficiente, pode ouvir a pergunta e a resposta neste link aos 36:10 (# abrindo o coração para o Brasil feelings).

A resposta foi muito interessante e esclarecedora, fazendo-me filosofar ainda mais sobre as questões amorosas. Lembrei-me de uma de minhas músicas favoritas, Gravity, de Sara Bareilles, que também é uma de minhas cantoras favoritas. O refrão é assim:

Set me free, leave me be
I don’t want to fall another moment into your gravity
Here I am and I stand so tall
Just the way I’m supposed to be
But you’re on to me and all over me.

Gravidade. Assim como a força da gravidade. Que forma mais perfeita de poeticamente definir este sentimento que nos puxa e nos mantêm atrelados a outras pessoas, que tomar forma de amizade, amor, paixão. Mas será que esta força da gravidade amorosa segue as mesmas leis físicas da gravidade entre dois corpos? Fui buscar a resposta em um livro de Física 2 da faculdade e me permiti fazer um paralelo interessante. Segundo a lei da gravitação de Newton, cada partícula atrai qualquer outra partícula com uma força gravitacional cuja intensidade é dada por

A força que atua nos corpos é proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional à distância entre eles, sendo G uma constante. No caso da força da gravidade amorosa (vou abreviar FGA), a equação tem (pasmem) o mesmo formato! Explico:

G: coeficiente de viagem na maionese
m1: massa de desejo da pessoa 1
m2: massa de desejo da pessoa 2
r: distância entre as pessoas

Sendo assim, quanto maior o coeficiente de viagem na maionese, maior a FGA. Com relação às massas, mesmo que a pessoa 2 possua uma massa de desejo mínima, se a massa de desejo da pessoa 1 for grande o suficiente, podemos ter uma FGA igualmente grande – isso explica a dificuldade de se esquecer um amor, mesmo quando não correspondido. Por fim, a distância entre as pessoas (r) é fator crucial na determinação da grandeza da FGA, sendo inversamente proporcional e ainda elevada ao quadrado. (obs.: não vale dizer que a m2 é zero ou negativa, ok? estou inventando a fórmula e posso ditar as regras haha).

Mas afinal, qual a lição que esta minha física tabajara pode trazer? Pode nos ajudar a lutar contra a FGA de amores não correspondidos, pode set us free, pode leave us be.  Como proceder, então, para diminuir esta força? Matematicamente, há quatro maneiras. Não podemos, entretanto, modificar a m2 (pois depende da outra pessoa) e nem a G (pois se trata de uma constante). Resta-nos duas possibilidades:  1- diminuir nossa própria massa de desejo (m1), distraindo-nos, deixando com que o tempo faça seu papel; 2- aumentar a distância em relação a outra pessoa (r), afastando-se e, assim, tornando mais fácil a tarefa de esquecer.

Viver é um livro de esquecimento, não é mesmo?

M.

Primavera brilhando em seu olhar

24 set

… e o olhar que eu guardo na lembrança ainda traz a esperança.

Chegou a temporada das flores. Mais uma vez nos despedimos das roupas pesadas e começamos a ensaiar um novo brilho no olhar.

Primavera é transição, renovação. Hora de desabrocharem as flores, os desejos, as esperanças, de programar a nova estação. Particularmente, tenho preferência aos solstícios, que possuem mais personalidade, mas impossível não reconhecer o sopro de ar fresco que a primavera nos traz após um longo e gélido inverno. Não nos aqueceremos mais do nosso próprio calor, mas das cores que voltam a nascer por aí, que nos suportarão para que floresçam as ideias plantadas no frio.

Agora, com os dias mais longos e iluminados, teremos inclusive mais força para preparar  nossa colheita, sair à rua, permitir novos tatos e novos perfumes. Poderemos, enfim, direcionar as energias armazenadas em nossa hibernação, afinal, não é à toa que ao fazermos aniversário, comemoramos novas primaveras.

Nos Estados Unidos, as férias mais esperadas são o Spring Break. No Japão comemora-se o florescimento das cerejeiras, por serem as mais frágeis, belas e delicadas, a mais nobre de suas madeiras, os mais sensuais e doces frutos; todavia, para que floresçam precisam das horas de frio predecessoras.

Te traeré de las montañas flores alegres, copihues, avellanas oscuras, y cestas silvestres de besos..

Quiero hacer contigo lo que la primavera hace con los cerezos.
P. Neruda.

Almas vencidas, noites perdidas …

23 set

Quando falei sobre a saudade, fiz a publicação acompanhada de uma música da Mariza, a fadista portuguesa mais conhecida da atualidade, e acho, portanto, justo, falar também um pouco do que é o fado.

“Almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras … Amor, ciúme, cinzas e lume; Dor e pecado. Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado. E o fado é o meu castigo, só nasceu pra me perder; O fado é tudo o que digo e mais o que eu não sei dizer”.

Assim foi que Amália disse e, sendo que ela permanece a diva mundial deste gênero, internalizei o conceito. Literalmente, fado quer dizer ‘destino’, e é sobre ele que os cantores, taciturnos, lamentam melancolicamente. Tradicionalmente são acompanhados por poucos instrumentos, com destaque à guitarra portuguesa, mas o que chama a atenção mesmo é a voz que derrama as agruras do coração, que ao que me parece, já nem cabiam em seus peitos.

Viela D'Alfama

Viela d'Alfama

Sem me delongar sobre o fado-vadio, fado-canção e tantos outros, ressalto que quase sempre o fado fala sobre o amor, a tristeza e nostalgia, sendo impossível que não nos toque de alguma forma. Popularizaram-se em Lisboa, no bairro de Alfama, onde é tradicional até hoje, mas ganhou o mundo na voz da incomparável Amália Rodrigues. Ela que nasceu sob difíceis condições e em uma família problemática, dentre seus vários afazeres canta para extirpar seus sentimentos e, assim, conquistar toda a sua nação. Diz a lenda que o primeiro concurso que tentou competir, foi anulado pois todas as outras garotas portuguesas se recusaram a competir com Amália ante a sua grandeza.

Até hoje Amália encanta com sua sinceridade e é enaltecida por todos de sua terra. Em 2009 ganhou um filme biográfico que eu recomendo muito que todos assistam, e paralelamente um projeto chamado ‘Amália Hoje’, que repaginava os arranjos de sua música e se tornou também muito popular em Portugal. (aqui o link da versão que eu mais gostei (http://www.youtube.com/watch?v=BgQeJ6BqRLI). E em termos de atualidade, vale a pena conhecer Deolinda, que possui uma roupagem menos tradicional que a Mariza e também a Carminho.

Coração de Alfama

Casa de Fado Coração de Alfama

Mariza de longe pode ser reconhecida como fadista também pela sua vestimenta, vez que usa e abusa das saias rodadas, xales portugueses e do negro, que, entendo, representa de forma muito honesta a forma de se ‘sentir’ o fado. Uma curiosidade é que em muitas letras se percebe referências à ‘Mouraria’, bairro de Lisboa onde ainda restam tradições mouras e de onde remontam as primeiras canções de fado e os bordados característicos da terrinha.

E por fim, como não podia deixar de ser, deixo a minha preferência no fado, de quem já pude assistir a duas apresentações, Kátia Guerreiro, uma médica que largou a carreira para se arriscar como cantora de fado. Diz ela que a vida ensinou-lhe que ‘o destino é traçado em cada passo que eu der / e o fado não é mais que um caminho que os poetas traçam ao escrever’, mostrando mais uma vez a delicadezadas letras deste belo ritmo.

Já o título de outra canção que gosto muito nos pode demonstrar a carga sentimental de que é imbuída (Pranto de amor ausente) e a sua letra evidencia a profundidade de um sentir quando ela afirma querer ‘morrer de amores, como os rios morrem no mar’, enquanto aparentemente estes se fundem e aparentam ser um só – mas nas profundezas ainda vivem de forma particular, tratando-se portanto de um belo eufemismo para definir a entrega à uma vida de amor. Acho as letras todas de uma sensibilidade incrível – e espero que a alguns possa também tocar.

“Meu grande amor, meu sorriso, minha amargura,
Nasce a luz, na noite escura quando vens pra me abraçar, 
Oh meu amor, rasga essa dor e sorri, 
eu não sei viver sem ti e vivo só pra te amar”


Eis um de seus videoclipes, acompanhados de imagens da saudosa Lisboa.

Rei morto, rei posto.

21 set

Li há um tempo atrás uma frase que eu gostei muito, mas esqueci de anotar e hoje só lembro fragmentos … mas enfim, dizia que as almas mais sensíveis não ficam enrijecidas com o tempo, mas cada vez mais vulneráveis. É o ditado, tem gente que não aprende nunca, não é mesmo? Ao ler o post da Malu fiquei remoendo histórias e histórias pois, como ela, adoro criar meus contos, imaginar entrelinhas e perceber sutilezas só minhas, mas também lembrei de um livro que ela me emprestou e do qual eu anotei: “deixei de ser uma pessoa assustada e defendida, para entender que ninguém morre de intensidade. Morre-se, ao contrário, de embrutecimento”.

E com este hábito que possuo, somado à concordância da frase acima, da Maitê Proença, mais e mais me recuso a me despedir ou me desprender de certas coisas – não sou acostumado a renunciar e sigo com meus devaneios, acreditando no poder da intensidade, evitando meu embrutecimento mesmo sabendo da ressalva de que as almas tornam-se, com o tempo, cada vez mais permeáveis.

Vi num livro um dia desses que o problema da sociedade contemporânea é a criação de pessoas individualistas, que acreditam que os seus desejos são mais importantes que os da coletividade, o que não existia nas pequenas comunidades de antigamente. Deixando de lado as pretensões de um todo é que surgem os conflitos, mas de qualquer forma, pra mim os desejos que devem me guiar são aqueles que embasam o meu conceito de felicidade e não estou pronto pra abrir mão deles tão facilmente. Sou também grande mestre na arte de fixar objetivos e situações a serem alcançadas, na imaginação de que tenho certezas absolutas de o que deve habitar o meu futuro. Talvez por isso eu goste muito mais das reticências que dos pontos finais ora, muito mais do que me indica o ápice de um porvir do que de encerramentos, despedidas ou mesmo desistências, assim fantasio que sempre haverá ainda tempo para que alcance meus objetivos.

E para que eu possa refletir e entender minhas perspectivas, nada melhor que uma trilha sonora que sussurre para mim aquilo que eu esqueci de dizer e, apesar da modinha dos últimos meses, faço questão de dizer que Adele é alguém que me fala com certa particularidade (e que eventualmente merecerá uma publicação detalhada neste blog). E de suas músicas, a minha favorita é ‘Don’t you remember’. Emotivamente, Adele se questiona sobre o fim de uma de suas histórias e da partida de seu amor, enquanto chorosamente indaga:

When was the last time you thought of me?
Or have you completely erased me from your memories?
Cause I often think about where I went wrong
The more I do, the less I know.

But I know I have a fickle heart and bitterness
And a wandering eye, and a heaviness in my head

But don’t you remember, don’t you remember?
The reason you loved me before,
Baby please remember me once more.

Imagino ela, dilacerada num dia chuvoso de Londres, com seu cigarro em uma mão e o celular na outra, seu próprio CD tocando ao fundo enquanto pergunta: Você lembra? Lembra de tudo que vivemos tão intensamente, tudo que dissemos com tanta volúpia, tudo que quisemos com tanta sincronia? E que sim, ela espera que ele lembre, mas que também pare de dar sinais disso; enquanto isso escreve e apaga as sms de seu celular.

É assim que a vislumbro, porque afinal, nunca sabemos quais são os sinais efetivamente enviados e aqueles que são apenas fruto do nosso (sub) (in) consciente – mas quem nunca passou em uma rua propositadamente, sentiu um cheiro, ouviu passos? Ou mesmo ouviu tudo aquilo que faz vivas as lembranças, viu fotos ou falou de um certo alguém, principalmente quando não há mais assunto que baste para as tardes e noites arrastadas …

E assim como comentou a Malu, e me respalda o espírito inconformista, me recuso por muito tempo a encerrar fases, fechar ciclos e mudar de ares. Mas apesar disso o inconstante sou eu, não me permitindo aceitar que o futuro também o seja, motivo pelo qual procuro permanecer onde estou, questionando, revivendo e indagando sem que me permita seguir em frente até compreender pormenorizadamente todos os fatos, sentidos e possibilidades, mesmo que à minha maneira. Espero os meus entendimentos até que haja a catarse que me desanuvie para o futuro.

Todos os filmes passam de novo, todos os momentos são revividos: ora com indícios do fim em todas as partes, ora com eles ausentes na totalidade. E conscientemente sei: não, não vai adiantar questionar, conversar, desabafar, ignorar; o vazio é parte do corpo e a ausência torna-se palpável.

Resto, portanto, na expectativa do novo e das distrações, munido da minha sensibilidade, enquanto aguardo o pigarro do narrador da minha mente para que se mude completamente o rumo da minha história -Aguardo a coroação do novo rei e, com sorte, e as cores voltarão a derramar-se sobre o cotidiano. Hopefully.

amores imaginários

19 set

Quem me conhece sabe: sou graduada em frustrações amorosas aplicadas, mestre em stalking science, doutora em broken heart management. É um currículo extenso, que contempla módulos internacionais, workshops e minicursos dos mais variados temas:

  • Chorar pitangas – o valor de um ombro amigo;
  • Respeito próprio – há limites?;
  • O que fiz de errado? – ampliando horizontes.

Pergunto-me de onde surgiu tamanha predisposição a idealizar pessoas e nutrir amores platônicos, dando início a histórias que 99,99% das vezes não acabam bem. A resposta que me vem à cabeça: uma imaginação mais fértil que o delta do rio Nilo, combinada a uma irritante falta de discernimento, que acaba por mesclar realidade e fantasias mentais. Um problema, meus amigos.

Desde pequena, costumo atribuir personalidades/características a objetos inanimados, carros, por exemplo. Com as lanternas faço os olhos; com a logo, o nariz; com a placa, a boca; cada carro tem suas próprias expressões faciais (duas, mais precisamente; a de frente e a de trás). O Corsa tem sempre o semblante cansado; o Ka, coitado, fora acometido pelo bócio; o Peugeot 206 aperta os olhos de raiva, como seu pai, o 307; o Vectra te olha com um quê de desprezo. Oh, Vectra, por que me desprezas?!

Analisando as proporções de tal viagem na maionese, dá pra se ter uma ideia do estrago que isso não faz com relação a pessoas – danger! – idealizo seus hábitos, suas canções e livros favoritos, preferências gastronômicas, you name it. Até aqui, tudo bem – tudo não passa de um exercício de imaginação. O problema surge justamente quando tais idealizações atravessam a fina película da interface ficção/realidade (sem entrar em detalhes filosóficos a respeito do conceito de realidade, ok? acho que dá pra entender a ideia). São mundos de outras galáxias, meus caros, o conflito é inevitável.

Não posso lutar contra a primeira característica, não dá pra simplesmente desligar o cérebro. Até dormindo ele trabalha, lembro-me dos meus sonhos quase todo dia. Sendo assim, meus esforços vêm sendo direcionados em outro sentido, com o intuito de reforçar e proteger esta interface (e, consequentemente, proteger a mim mesma). Nesta, aplico um coating de bom senso, uma resina com partículas de conselhos alheios, um verniz de experiências passadas – alto brilho. Vezes ou outra, a película acaba furando; ainda há regiões em que ela é mais delicada, em que já fora remendada várias vezes.

E vou vivendo assim, aplicando camadas e mais camadas.  Se isto vai endurecendo a gente? vai… mas é melhor endurecer do que sofrer por amores imaginários.

M.

mudando paradigmas

15 set

Até pouco tempo atrás, possuía uma implicância crônica com pessoas extremamente felizes e otimistas. Não que eu idolatrasse a melancolia, à la française, mas achava que alegria 24h só podia ser algo forçado, digno de propagandas de margarina. Mais uma vez, este ano, ouço uma irônica voz ecoando em minha cabeça, dizendo-me a língua é o chicote da bunda, diz-me. Pego-me escrevendo textos com superlativos e adjetivos exagerados, num deslumbramento nunca antes visto na história deste país (embora ainda não esteja desejando bom dia, sol! bom dia, grama! bom dia, pássaros!, seria forçar a barra). Posso dizer que estou vivendo uma fase extremamente feliz, sem nenhum motivo especial, nem remédios de tarja preta, frise-se.

Da época que fiz o cursinho (naquela instituição que é um show de aprovação e lavagem cerebral), lembro-me de poucas coisas. Lembro que os anelídeos excretam por nefrídios, que pedra preta em guarani é itaú, e lembro-me bem da frase que um professor de geografia martelava em nossas cabeças: “vocês têm que aprender a mudar seus paradigmas”. Foi um dos ensinamentos mais importantes que recebi (obviamente, não tão importante quanto saber o sistema excretor das minhocas), mas numa época em que eu estava apenas começando a construir tais paradigmas.

Cinco anos depois, formada, meus paradigmas estavam belissimamente construídos, com a imponência de um World Trade Center, cravado numa metrópole de certezas e preconceitos. Eis que chega o ano dois mil e onze. 2011 foi o meu 11 de setembro – de camarote, vi meus paradigmas sendo destruídos, um a um, pelo grupo terrorista mais cruel e imprevisível, o acaso.

Por outro lado, assim como no episódio de terror americano, a fase posterior aos ataques não foi um período dominado pelo medo, e sim um período de análise, transformação, reconstrução. Lá temos o patriotismo, aqui o amor próprio, lá a compaixão, aqui o perdão a si mesmo. Dez anos depois, os Estados Unidos prestam homenagem às vítimas do atentado; hoje vivem num momento de paz, mesmo com a crise econômica. Esta mesma paz é, quem sabe, o que me traz tal felicidade perene, sem motivos (mesmo com as eventuais crises econômicas ao final do mês).

Já é dito popular que aquilo não aprendemos por conta própria, ou observando os outros, a vida nos ensina. De fato me ensinou, e me fez mudar. Ah, como é difícil mudar! Façamos um esforço em conjunto, então, e conjuguemos:

Eu mudo
Tu mudas
Ele muda
Nós mudamos
Vós mudais
Eles mudam

Sem medo.

M.