Arquivo | outubro, 2011

es pe ran do

31 out

Psychomachia é um épico poema escrito por Prudêncio (348  – 413) que discorre sobre lutas alegóricas entre os vícios e as virtudes. A obra foi muito popular durante a Idade Média e se espalhou por toda a Europa.

Do texto, emerge o conceito das “Sete Virtudes”, em oposição aos “Sete Pecados Capitais”, que seriam:

  • Castidade (Latim castitate) – se opõe à luxúria
  • Generosidade (Latim liberalis) – se opõe à avareza
  • Temperança (Latim temperantia) – se opõe à gula
  • Diligência (Latim diligentia) – se opõe à preguiça
  • Paciência (Latim patientia) – se opõe à ira
  • Caridade (Latim humanitas) – se opõe à inveja
  • Humildade (Latim humilitas) – se opõe à soberba

Dentre as Sete Virtudes, diz-se que a mais difícil de desenvolver é a paciência.

Particularmente, vivo um momento em que, mais do que nunca, preciso desenvolver esta virtude. Posso dizer que realmente não é uma tarefa fácil.

Espero por notícias, notícias que vão inevitavelmente mudar o rumo da minha vida. Tenho insônia, troco o dia pela noite, penso, tento não pensar, distraio-me, tento me distrair, busco refúgio(s).

Por sorte, tenho também esperança, esperança que me faz sobreviver, dia após dia, estilo AA; ou melhor, IA – Impacientes Anônimos. Afinal, como diz o poeta:

El infierno es esperar sin esperanza.

M.

Que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder

31 out

Confesso estar meio cansado do turbilhão de coisas que se passam; é curso, prova, futuro e mais mil coisas me preocupando, talvez bem mais do que devessem … mas se tem alguma coisa que sempre me acalma é a perspectiva de viajar.

Real ou não, estou sempre planejando a próxima viagem, os lugares a conhecer, os dias a permanecer. Porque não gosto de passar correndo pelos lugares e ver o que tem lá. Quero sentir. O clima, as pessoas, os costumes … quero depois de uns dias me sentir de lá, comendo, falando e ouvindo como eles.

Esta incursão nas sociedades não é tão natural pra mim, curitibano que sou, avesso à intimidades com quaisquer que ainda não tenham me conquistado. Mas ao sair do país meio que abandono algumas restrições e sou conquistado por toda uma energia que me cativa e então converso, peço informações, dicas e sugestões de quem se dispuser a partilhar comigo o que sabe. E talvez por isso eu seja tão apaixonado por largar todo o meu conforto e buscar novos ares, cores e sabores por aí.

Já viajei com um, dois, dez e nenhum amigo, ‘sozinho no mundo’, e em cada uma dessas oportunidades vivi coisas únicas. Dizem, também, que só viajando junto pra conhecer bem uma pessoa e aprender a respeitar os outros.

Respeito tanto na esfera pessoal quanto universal. Além de conciliar os interesses e expectativas dos companheiros de viagem, vamos nos acostumando com os assombros que as novas realidades nos apresentam quando cada passo nos revela um mundo novo.

Italo Calvino escreveu sobre Marco Polo as seguintes palavras:

“Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos”

E né, sem amarras, ficamos mais livres pra compreender coisas que ficaram guardadas dentro de nós e interpretar de forma bem pessoal os sentidos que o novo nos proporciona. Há realmente um pouco de catarse em cada momento em que nos permitimos ser menos nacional ou municipal, mas globais.

Lisboa, Abril de 2011

Portanto, subvertendo um pouco do que eu acho que a autora quis dizer, termino com Florbela Espanca ao fazer minhas suas palavras e rogar ‘… que me possa perder, pra me encontrar’. 

When you lose something you can’t replace …

23 out

… lights will guide you home and I will try, to fix you.

“A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais…”

Não quero aqui parecer egoísta ou leniente com os sentimentos alheios, mas a impressão que eu tenho é a de que a cada situação grandiosa, de dor ou alegria, todo o resto do mundo parece pequeno e distante.

Este talvez seja um dos problemas de se entregar, sentir demais ou ser intenso por toda a vida – chega um momento em que parece que tudo o que já sentimos não tem comparativo real ao nosso redor. E assim, as coisas parecem meio bobas e sem sentido, não? Chego a fugir de grandes exaltações uma vez que ainda não sei lidar com o peso dos outros …

Depois de tantas sensações, não me sinto nem à vontade de consolar alguém ou me solidarizar com seus sentimentos, pois ‘aah, se eles soubessem’.

Não quero aqui dizer que seus sentimentos sejam falsos ou irreais, mas os meus ‘doem muito mais’.

E apesar disso, o que acaba acontecendo é que as pessoas acabam se ferindo ao não reconhecer o mundo de felicidade e tristeza que os cerca. O que falta, na minha opinião, é o reconhecimento deste fato e, portanto, aceitação de que cada um possui altos e baixos que, pessoalmente, são maiores do que todo o resto que pode existir. Não há mesmo como mensurar ou equilibrar, cada um tem um mundo inteiro dentro de si.

Justamente por isso, não basta, portanto, apenas sentirmos. Falta que além de sentir, mais profundamente e verdadeiramente que os outros, aceitemos que estes outros também sentem da mesma forma, mais até do que nós mesmos. Pra mim, mais que o egoísmo destas palavras, há a coexistência e o repeito ao reconhecer que cada um tem a sua China, populosamente sentimental, e que mais que compreensão, o que falta é entendimentos.

Por fim, mais um pouquinho de Mario Quintana para encerrar, quando diz que:

“Eu, agora – que desfecho! Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo de lembrar que te esqueci?”

Ora, não esqueci porque pra mim não deu, pra mim significava demais. E se você quiser ou não  esquecer, só me cabe aceitar.

Para ser grande, sê inteiro:

16 out

nada teu exagera ou exclui. 
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. 
Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.

Eu gosto muito deste poema do Pessoa, até porque concordo que é com a entrega que as coisas se conquistam, se cativam, e é assim que se conseguirá chegar ao sucesso.

E eu lembrei deste trecho na hora em que estava procurando umas fotos para o post anterior e vi uma da estátua de Nice, que também está no Louvre.

Sua forma é a de uma mulher alada e seu lugar original era na proa de um navio, imponente e significando a liberdade, sensual como um corpo de mulher, e buscava, assim, afastar os maus fluídos. Eis sua descrição:

Sob o vento, as roupas de seu vestuário se levantam e, molhadas, colam-se ao corpo revelando formas, força, ímpeto e fôlego de vida.”

Existem fotos melhores, mas eu preferi usar uma minha!

E, portanto, que tenhamos ímpeto e fôlego de vida, para conseguirmos a libertação e seguirmos nossos objetivos. A estátua é hoje conhecida como ‘Vitória de Samotrácia’, devido ao lugar em que foi encontrada. E temos então, a forma da vitória a ser alcançada com a combinação daqueles fatores.

O curioso é que a sua cabeça nunca foi encontrada. Acho ótimo. Assim, o rosto da vitória é o meu.

Sintam-se livres para serem inteiros e darem à ‘Vitória’ o rosto que quiserem.

ficar, pegar e outros verbos

13 out

Perdi meu BV assustadoramente tarde, depois de muitas noites mal dormidas, corroídas pela angústia de não me adequar ao círculo social de minhas amigas “experientes”. Obviamente, o desfecho se deu graças à solidária molécula C2H5OH, não lembro em que porcentagem, mas com certeza o suficiente para anestesiar boa parte das funções vitais.

A partir desse dia, um novo mundo se abriu à minha frente. Um mundo quase sempre desconhecido e imprevisível.

Posso dizer que, até hoje, já passei por todas as fases do ciclo. A paixonite, o amor não correspondido, o amor correspondido (aleluia!), os love games cercados de esperança e decepção. Alguns períodos loca-loca-loca, sem medo de ser feliz, mentindo nome e telefone como se não houvesse amanhã. Períodos de introspecção, esperando encontrar o amor da minha vida na seção de literatura inglesa da FNAC (still hoping). Ah, como tudo isso cansa! C’est ne pas facile.

A reflexão que me proponho a fazer, entretanto, é com relação à natureza descartável dos relacionamentos de hoje em dia. Confesso que é muito mais fácil pegar alguém e não dever satisfações, não ter compromissos. Satisfaço meus desejos primatas da carne e desligo. Pronto! Vapt, vupt! Não seria a solução moderna para a carência humana?

Seria… se ao menos nossas necessidades não fossem tão complexas. Necessidades estas que não são satisfeitas por amigos, nem familiares. É o SMS na hora do almoço, é aquela pessoa em que você pensa antes de dormir, é o motivo do inevitável sorriso no rosto, é saber que alguém gosta de você o suficiente para torná-lo protagonista de sua trama.

Já experimentei os dois lados da moeda, já interpretei todos os papéis. No auge dos meus 22 anos (uau, que broto), vivo uma fase em que não admito settling for second best. Quero algo real, durável, não descartável como uma sacola plástica que na melhor das hipóteses é utilizada para catar cocô de cachorro.

Isso não significa necessariamente ter filhos, constituir uma família com 1/5 de século de vida. Significa me relacionar com alguém que goste de mim por quem eu sou, alguém que esteja disposto a dividir suas alegrias e agruras com outro ser humano, assumindo um papel de protagonista e não de coadjuvante em vidas alheias. As responsabilidades são maiores, é claro. O texto a se decorar é maior, as horas em cena também, mas é o preço a se pagar. O salário e os benefícios são, afinal, compatíveis com a função.

Aceito CVs.

M.

I know that you still haven’t found you …

11 out

Psiquê revivida pelo beijo de Eros.

Só este nome já seria suficiente pra me fazer gostar da história, mas a escultura em mármore que está no Louvre, confesso, foi o que me despertou a curiosidade. Esta é uma das minhas estátuas favoritas da humanidade (pelo menos até onde eu conheço) e a mitologia por trás dela eu acho bem bonita.

Teve boatos que a Psiquê, que representava a alma dos amantes, era a pessoa mais bonita da terra e, só de raiva, Afrodite, dona de toda a beleza do mundo, mandou que seu filho a fizesse se apaixonar pelo homem mais feio de todos. Mas claro que, ao chegar para realizar seu serviço, Eros não conseguiu e também se apaixonou por Psiquê.

Evidentemente que a história não seria simples assim, que a Psiquê sucumbiu a influências maldosas, que traiu por duas vezes a confiança de seu amado e que também realizou algumas tarefas aparentemente impossíveis para reconquistar o amor e o respeito de Eros. Mas ao final, com a ajuda dos outros deuses e animais, conseguiu se purificar para que merecesse o destino por ela escolhido.

Então, quando se casou com Eros, tiveram uma filha, de nome Prazer, ou seja, o prazer adveio do amor, filho da beleza, quando se encontrou com a alma purificada. Bonito né?!

E ao lado da imagem abaixo, uma estrofe de Fernando Pessoa chamado ‘Eros e Psiquê’, que encerra a história com uma passagem que, no meu entender, demonstra que o caminho da purificação interior e o resultado de nossas procuras estão, de fato, dentro de nós, hehe

Gosto, também deste poema porque é um dos poucos que conta a história sob a visão de Eros, semideus, e não da perspectiva da cambiante Psiquê;

 E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia. 

                                                                                                                                                                                                                                                                    Eros por muito procurou a princesa quando, na verdade, devia mesmo era se encontrar, era isto que precisava antes de encontrar o amor e enfim, merecer seu destino.

E você, está procurando no lugar certo?

In the confusion of it all …

2 out

Ontem à tarde eu estava estudando e fui rapidinho olhar o face, quando me deparei com um vídeo lindo, e então pronto, perdi uma boa parte do meu estudo …

Se fosse pra eu ser um ingrediente de alguma receita, certeza que iria ser a manteiga .. derretida! Tirem suas próprias conclusões: 

A música nem ajudou, mas eu não parei nunca mais de chorar! Acho que por não termos este tipo de preocupação aqui no Brasil, muitas vezes esquecemos de dar valor pra muita coisa (e a partir de agora vou tentar não cair na pieguice e blabla).

Ainda hoje, a única coisa que eu vejo de resquício de guerras no Brasil são as questões ligadas à guerrilha do Araguaia, que por sinal vem sendo tratada cheia de desrespeito. Mas o fato é que não vivemos com a expectativa de ter algum familiar enviado à guerra, com a preocupação em saber se irá voltar, com o coração dividido entre a vontade de ajudar o país e ficar em casa.

As pessoas vendo seus queridos voltarem de repente foi uma coisa que mexeu muito comigo, justamente porque trata-se de uma situação meio distante pra gente aqui no Brasil, e bem por isso muitas vezes a gente esquece de aproveitar bem quem a gente tem. Se meus amigos não vão ser enviados pro meio da confusão, se meus pais não vão se alistar e etc., nem tem porque se preocupar não é mesmo, parece que pra sempre teremos tudo igual e tempo pra curtir tudo que há de bom pra viver. Ainda, temos a cara de pau de nos acostumar com as questões de violência que nos sentimos meio ‘intocáveis’, distante de qualquer coisa que possa nos afastar de alguém.

Pensando nisso, mais uma vez fiquei brabo com algumas robotizações que vejo por aí e com mais vontade de aproveitar os dias, as pessoas, cores, sabores e melodias; de esquecer os pontos finais e dar atenção para as aspas, vírgulas, parênteses e reticências e, entre as histórias, músicas, rimas e poesia. E ao mesmo tempo, que nos deixemos sempre surpreender por aqueles que gostamos!

ownn

amor, amore compensatur.