Arquivo | outubro, 2012

Cheira bem, cheira Lisboa

6 out

Torre de Belém, 2011

Lisboa cheira aos cafés do Rossio

E o fado cheira sempre a solidão

Cheira a castanha assada se está frio

Cheira a fruta madura quando é Verão.

Quem tomou uma B.I.C.A (beba isto com açúcar), um café com leite, na praça do Rossio, não lê o trecho acima sem sentir um arrepio. As castanhas portuguesas, das quais se fazem o melhor marrom glacê, os vinhos do Alentejo,  o bacalhau com natas e as sardinhas na brasa também deixam saudade.

E pra tirar o cheiro das sardinhas das mãos, esfregá-las nos manjericos, adornados com poemas. As mudinhas do tempeiro, não podem ser cheiradas diretamente, apenas por meio da palma das mãos. Do manjerico de Santo Antônio, à São Vicente de Fora, que o costume me traga sorte.   E com esta simbologia, que o fado me seja só um capricho, e não um choro da alma.

Mosteiros, Santa Clara, Nossa Sra. de Fátima .. que tantas beatas de preto me tragam só bons presságios.

Bom seria se Lisboa deixasse apenas lembranças gastronômicas. Mas cada beco de Alfama se apresenta como pela primeira vez quando perde-mo-nos, assim como cada pôr-do-sol no Castelo de São Jorge.

Os pastéis de nata, em Belém, são feitos às metades, em duas cozinhas, para que se preserve a receita original. Assim como as tradições de andar pelo elétrico na cidade das 7 colinas, ou caminhar pela Liberdade e sentir o sopro dos novos tempos em contraste. Como ler sempre como à primeira vez um poema de Pessoa, de Florbela, de Amália.

Mosteiro dos Jeronimos, 2009

Estar em Lisboa aos 25 de Abril, é receber uma ‘chuva’ de cravos vermelhos, em homenagem à revolução que marcou todos os ‘tugas’. Estar em Lisboa aos 20 anos, é ver tudo tão diferente quanto parecido, é ver um povo tão moderno e conservador que só o velho mundo pode nos apresentar. Quando Paris estava em seu esplendor, na década de 40, cantou-se à Lisboa que não fosse francesa, que preservasse sua alma portuguesa; e hoje eu canto, que seja minha, que se preserve aos meus olhos, que se apresente nos meus caminhos.

“Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa, no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar,

Que perfeito coração no meu peito bateria, Meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração”.

Próxima parada …

3 out

Mais uma vez estou com ganas de viajar.

E mais uma lista de destinos preparados pra acontecer. Como Aristóteles, não sou ateniense nem grego, mas um cidadão do mundo, e acredito que nos reconhecermos em outras culturas e costumes faz parte da alteridade.

Negar a identificação no outro, na minha opinião, é negar o que nos faz humanos, evitar a nossa essência e permanecer em um mundo de sombras.  O auto conhecimento, essencial para compreensão das relações interpessoais e obtenção de uma melhor qualidade de vida, passa pelo contraste com o diferente, pelo contato com o novo.

Então, que a cada dia eu possa me ‘perder para me encontrar’  (Florbela Espanca), que me identifique e faça a autoanálise que edifica. Em tempos de amor líquido, que consiga aproveitar o que a maleabilidade tem de bom e seguir rotas para todos os pontos cardeais.

Padre Antonio Vieira já brindou o período barroco brasileiro com escritos neste sentido e, concordando, que eu possa escolher para viver tantas terras quanto os caminhos me oferecerem, abandonando o provincianismo que é tão confortável.

“Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra. Para nascer, Portugal: para morrer, o mundo”

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Rua do Correio Velho, Lisboa, 2009